Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

Crise


O cansaço apodera-se de mim,
e o grito há muito contido
decide não mais se libertar.
As palavras estão gastas,
os sentimentos confundidos.
As viagens, outrora diferentes,
tornaram-se desprovidas de novidade e espanto,
vestem-se todos dias da mesma cor.
O coração bate devagar,
garantindo-me que continuo aqui.
O farol distância-se,
avisto-o afastar-se
sem a mínima vontade de lhe acenar.
As palavras outrora preciosas
são promessas de dor e desilusão
 também elas estão enfraquecidas e cansadas
de alimentarem sonhos e esperanças.
Tornámo-nos objectos vulgares,
esquecemos valores, amores…
É a era do vazio.

Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011

Solidão acompanhada


Entrou no quarto vazio e desarrumado, abriu a janela e acendeu um cigarro. O Inverno chegara e embora tivesse o aquecedor ligado sentia-se a gelar. Foi à cozinha e abriu uma garrafa de vinho. Na noite anterior tinha ido ao teatro, desde criança que gostava de teatro e de todo aquele ambiente de fantasia e  de ilusão, gostava sobretudo das inúmeras vozes que se faziam ouvir durante o espectáculo e que iam ao encontro das suas vozes interiores.
 Durante o tempo que vivera em Lisboa várias eram as vezes que ia ao teatro, fazendo-se acompanhar dos seus amigos e dos seus amores. Gostava de Lisboa porque em Lisboa podia ir ao teatro todas as semanas, tornando cada ida ao teatro num verdadeiro ritual: à tarde comprava os bilhetes, à noite tomava um banho demorado e vestia a melhor das roupas, maquilhava-se e calçava sapatos de salto alto. Eram raras as peças das quais que gostava, embora a "Canção do Vale" tenha sido um verdadeiro fiasco: cinco pessoas na sala, dois actores em palco e uma falta de empatia enorme. No final da peça ela bateu palmas durante largos minutos, ficando com as mãos vermelhas e doridas.
 Em tempos decidira fazer um curso de teatro e imaginava-se a representar no Teatro Dona Maria II, perante um vasto público dos oito aos oitenta que no final da peça aplaudia pedindo mais. Ela gostava de ser aplaudida, gostava de elogios e de se exibir perante as gentes, como se fosse um pavão vaidoso e colorido, repleto de penas verdes, azuis e de todas a cores existentes e por existir. Gostava de se mascarar, de se fazer de pavão, de não parecer uma borboleta apavorada que esvoaçava de flor em flor.
Entrou no quarto vazio, abriu a janela, acendeu um cigarro e foi à cozinha buscar um copo de vinho. Era quinta feira do mês de Dezembro e as ruas estava iluminadas, naquela noite ela decidira contar os carros que passavam. O quarto ficava no sétimo andar de um prédio novo e bonito, no entanto, mal abria a janela via o cemitério e as suas inúmeras lápides, cuja frieza adivinhava. Gostava de ficar à janela, começava por contar os carros, perdendo-se imediatamente nos seus próprios pensamentos. Que chato que é não se conseguir parar de pensar, para além do corpo se cansar os pensamento são tantos que se cruzam e emaranham-se, como se fossem novelos de lã velha e gasta, que se pode quebrar a qualquer instante mas que permanece intacta e pronta para ser transformada em camisolas largas, em gorros quentes,em pijamas de bebé e tantas mais coisas quantas a imaginação e o engelho forem capazes de conceber.
A verdade é que a solidão adora ter companhia.

Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011

Krisis



A Quoi ça Sert L'amour

O meu amor
tem um sorriso indefinido
de mármore por esculpir.
Cabelos de ébano
que dançam com o vento
num vendaval quase perfeito.
Tem mãos de quem cria mundos
asas de Ícaro, penas de Querubim
rosto de fantasia, de sonho, de alegria…
o meu amor é Fénix Renascida!
É página de livro por escrever
é caneta, é tela, é pincel,
é globo de um mundo por conhecer.
Se o meu amor me tomasse com avidez
no seu regaço e no seu leito...
Ah o meu amor!
Seria um amor quase perfeito.

Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011

Devaneios

A mesma inquietaçao de outrora, a mesma vontade de partir os pratos, os copos, o mesmo desejo de partir sem rumo, remando num barco que nao precisa de mar nem de ondas para avançar. Pergunto-me de será sempre assim, se me sentirei eternamente incompleta e insatisfeita. Mas a eternidade nao existe, tinhas razão. A inquietação que me persegue e que me prende tem dias em que me sufoca, e por mais água que beba a sede não é saciada por mais que meros instantes. Pergunto-me o que procuro e pergunto-me, principalmente, se algum dia me encontrarei. O espelho, apesar de ser o mesmo, mostra-me a cada dia novos rostos. Somos tantos. Percebi que a inquietação, a insatisfação e a incerteza não têm o encanto que em tempos julguei terem. Aquilo que nos separa da loucura é um fio invisível, uma linha que pode quebrar a qualquer momento, sendo o retorno doloroso, quase impossível. Pergunto-me sobre a amizade e o amor, pergunto-me como seria se nao houvesse distinção entre o meu e o teu. A verdade é que vivemos no mesmo bairro e tão pouco sabemos uns dos outros, tao pouco queremos saber, tao pouco nos importamos. Eram tantos os mundos possíveis e foi este que construímos, é este que vamos continuando a construir a cada dia. Nós: seres capazes das mais belas obras e, no entanto, das mais cruéis e maléficas acções. A inquietaçao não é a que chega, é a que nunca partiu.

Terça-feira, 8 de Novembro de 2011

Mastiga e deita fora?

Só quero encontrar paz sem arrastar atrás nem mestre nem deus.

Letrinhas de Cetim