Entrou no quarto vazio e
desarrumado, abriu a janela e acendeu um cigarro. O Inverno chegara e embora
tivesse o aquecedor ligado sentia-se a gelar. Foi à cozinha e abriu uma garrafa
de vinho. Na noite anterior tinha ido ao teatro, desde criança que gostava de
teatro e de todo aquele ambiente de fantasia e de ilusão, gostava sobretudo das inúmeras
vozes que se faziam ouvir durante o espectáculo e que iam ao encontro das suas
vozes interiores.
Durante
o tempo que vivera em Lisboa várias eram as vezes que ia ao teatro, fazendo-se
acompanhar dos seus amigos e dos seus amores. Gostava de Lisboa porque em Lisboa
podia ir ao teatro todas as semanas, tornando cada ida ao teatro num verdadeiro
ritual: à tarde comprava os bilhetes, à noite tomava um banho demorado e vestia
a melhor das roupas, maquilhava-se e calçava sapatos de salto alto. Eram raras
as peças das quais que gostava, embora a "Canção do Vale" tenha sido um
verdadeiro fiasco: cinco pessoas na sala, dois actores em palco e uma falta de
empatia enorme. No final da peça ela bateu palmas durante largos minutos,
ficando com as mãos vermelhas e doridas.
Em tempos decidira fazer um curso de teatro e
imaginava-se a representar no Teatro Dona Maria II, perante um vasto público
dos oito aos oitenta que no final da peça aplaudia pedindo mais. Ela gostava de
ser aplaudida, gostava de elogios e de se exibir perante as gentes, como se fosse
um pavão vaidoso e colorido, repleto de penas verdes, azuis e de todas a cores
existentes e por existir. Gostava de se mascarar, de se fazer de pavão, de não parecer uma borboleta apavorada que esvoaçava de flor em flor.
Entrou no quarto vazio, abriu a
janela, acendeu um cigarro e foi à cozinha buscar um copo de vinho. Era quinta
feira do mês de Dezembro e as ruas estava iluminadas, naquela noite ela
decidira contar os carros que passavam. O quarto ficava no sétimo andar de um
prédio novo e bonito, no entanto, mal abria a janela via o cemitério e as suas
inúmeras lápides, cuja frieza adivinhava. Gostava de ficar à janela, começava
por contar os carros, perdendo-se imediatamente nos seus próprios pensamentos. Que
chato que é não se conseguir parar de pensar, para além do corpo se cansar os
pensamento são tantos que se cruzam e emaranham-se, como se fossem novelos de lã velha
e gasta, que se pode quebrar a qualquer instante mas que permanece intacta
e pronta para ser transformada em camisolas largas, em gorros quentes,em pijamas de bebé e tantas mais coisas quantas a imaginação e o engelho forem capazes de
conceber.
A verdade é que a solidão adora
ter companhia.
Eu também tenho saudades de Lisboa e de ir ao teatro! Mas felizmente sei que irei lá voltar acompanhado ou não dessa mesma solidão...
ResponderEliminarMuitas das vezes são escolhas que se fazem... isto da solidão!
ResponderEliminarSim a vida resume-se à soma das escolhas e às respectivas consequências. Há tempos tomei uma decisão, depois tomei outra. Resultado: aconteceu exactamente aquilo que tinha previsto! E mesmo que a minha decisão tivesse sido outra naquela altura tenho a certeza que a consequência seria exactamente igual! E não há forma de conseguires provar o contrário!
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