Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011

Solidão acompanhada


Entrou no quarto vazio e desarrumado, abriu a janela e acendeu um cigarro. O Inverno chegara e embora tivesse o aquecedor ligado sentia-se a gelar. Foi à cozinha e abriu uma garrafa de vinho. Na noite anterior tinha ido ao teatro, desde criança que gostava de teatro e de todo aquele ambiente de fantasia e  de ilusão, gostava sobretudo das inúmeras vozes que se faziam ouvir durante o espectáculo e que iam ao encontro das suas vozes interiores.
 Durante o tempo que vivera em Lisboa várias eram as vezes que ia ao teatro, fazendo-se acompanhar dos seus amigos e dos seus amores. Gostava de Lisboa porque em Lisboa podia ir ao teatro todas as semanas, tornando cada ida ao teatro num verdadeiro ritual: à tarde comprava os bilhetes, à noite tomava um banho demorado e vestia a melhor das roupas, maquilhava-se e calçava sapatos de salto alto. Eram raras as peças das quais que gostava, embora a "Canção do Vale" tenha sido um verdadeiro fiasco: cinco pessoas na sala, dois actores em palco e uma falta de empatia enorme. No final da peça ela bateu palmas durante largos minutos, ficando com as mãos vermelhas e doridas.
 Em tempos decidira fazer um curso de teatro e imaginava-se a representar no Teatro Dona Maria II, perante um vasto público dos oito aos oitenta que no final da peça aplaudia pedindo mais. Ela gostava de ser aplaudida, gostava de elogios e de se exibir perante as gentes, como se fosse um pavão vaidoso e colorido, repleto de penas verdes, azuis e de todas a cores existentes e por existir. Gostava de se mascarar, de se fazer de pavão, de não parecer uma borboleta apavorada que esvoaçava de flor em flor.
Entrou no quarto vazio, abriu a janela, acendeu um cigarro e foi à cozinha buscar um copo de vinho. Era quinta feira do mês de Dezembro e as ruas estava iluminadas, naquela noite ela decidira contar os carros que passavam. O quarto ficava no sétimo andar de um prédio novo e bonito, no entanto, mal abria a janela via o cemitério e as suas inúmeras lápides, cuja frieza adivinhava. Gostava de ficar à janela, começava por contar os carros, perdendo-se imediatamente nos seus próprios pensamentos. Que chato que é não se conseguir parar de pensar, para além do corpo se cansar os pensamento são tantos que se cruzam e emaranham-se, como se fossem novelos de lã velha e gasta, que se pode quebrar a qualquer instante mas que permanece intacta e pronta para ser transformada em camisolas largas, em gorros quentes,em pijamas de bebé e tantas mais coisas quantas a imaginação e o engelho forem capazes de conceber.
A verdade é que a solidão adora ter companhia.

3 comentários:

  1. Objecto de PlasticinaDec 9, 2011 09:44 AM

    Eu também tenho saudades de Lisboa e de ir ao teatro! Mas felizmente sei que irei lá voltar acompanhado ou não dessa mesma solidão...

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  2. Muitas das vezes são escolhas que se fazem... isto da solidão!

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  3. Objecto de PlasticinaDec 10, 2011 03:22 PM

    Sim a vida resume-se à soma das escolhas e às respectivas consequências. Há tempos tomei uma decisão, depois tomei outra. Resultado: aconteceu exactamente aquilo que tinha previsto! E mesmo que a minha decisão tivesse sido outra naquela altura tenho a certeza que a consequência seria exactamente igual! E não há forma de conseguires provar o contrário!

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